Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Alexandre O´neill, Pelo Alto Alentejo/ 2

Enquanto sobrevoamos o Mediterrâneo azul-ferrete
já deixada a roqueira Península
seis meninos esfaqueados pelo pai
são servidos à distracção dos viajantes
na primeira página do Anybody´s Star.

Apertar os cintos não fumar
dentro de minutos vamos aterrar.

Quinta-feira, 26 de Março de 2009

Filipa Leal, Apocalypse Now (para Adília Lopes)

Minutos antes do fim do mundo, os poetas
retiraram as vírgulas aos textos e os títulos aos textos
e a roupa ao corpo e os anéis aos dedos
porque não havia tempo
para tanta ostentação.

Porém os amantes que, à mesma hora, entretidos
liam um ao outro poemas de amor
no barroco banco do jardim
não imaginavam
o trabalho que aquilo lhes dava.

Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Nuno Júdice, Até ao fim

Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pormenores. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.

Sábado, 17 de Janeiro de 2009

José Luís Peixoto

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

Adília Lopes, in "Obra", Mariposa Azual

Não deixo a gata do rés-do-chão brincar com as minhas baratas porque acho que as minhas baratas não gostam de brincar com ela.

Joaquim Castro Caldas, Ao Lado

havia tantas coisas
que eu te queria dizer
se não fosse o abismo

de te perder num afago
de te ter do outro lado
do medo à minha beira

havia tantas coisas
que eu te queria dizer
se não fosse o amor

que há noites ao teu lado
em que me dói não sei
onde é que a distância ai

havia tantas coisas
se não fosse este fuçar
de nem fugir nem amar

Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

Nós não podemos amar, filho. O amor é a mais carnal das ilusões. Amar é possuir, escuta. E o que possui quem ama? O corpo? Para o possuir seria preciso tornar nossa a sua matéria, comê-lo, inclui-lo em nós... E essa impossibilidade seria temporária, porque o nosso corpo passa e se transforma, porque nós não possuimos o nosso corpo (possuímos apenas a nossa sensação dele) e, porque, uma vez possuido esse corpo amado, tornar-se-ia nosso, deixaria de ser outro, e o amor, por isso, com o desaparecimento do outro ente, desapareceria...
Possuímos a alma? - ouve-me em silêncio - Nós não a possuímos. Nem a nossa alma é nossa sequer. Como, de resto, possuir uma alma? Entre alma e alma há o abismo de serem almas.